sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

"Minha vida é o rap"



De ex-presidiário a cantor de rap famoso. Este é o sonho de Reinaldo Fernandes da Cruz ou, simplesmente, Stilo


Sabrinna Oliveira

Do Calango Net News

A infância conturbada fez com que entrasse para o mundo das drogas. Dos 12 aos 15 anos cometeu vários crimes para sustentar seu vício: tráfico de drogas, furto de carros, arrombamento de um açougue. Após ser condenado, Stilo passou seis anos e sete meses na cadeia. Em 2004, ao sair da prisão, resolveu mudar de vida. Hoje, aos 27 anos, faz parte de dois projetos – Projeto Fênix e Rap contra a Fome, que ajudam crianças a não entrarem para o mundo das drogas. Morador do Varjão, Stilo canta rap para arrecadar alimento para comunidades carentes.“Eu quero um dia cantar para me sustentar e ganhar dinheiro com uma coisa que eu faço desde os 10 anos de idade.”

SO - Como foi sua infância?

Stilo - Fui criado em São Paulo , no subúrbio. Meu pai era traficante e minha mãe dona de casa. Com 10 anos comecei a minha vida com música, com 12 anos caí pro tráfico. Era aquela vontade de ter aquela camisa cara de marca. Infelizmente meu pai nunca me dava.

SO- A infância difícil comprometeu sua adolescência?

Stilo - Tinha que roubar pra sustentar o meu vício. Era muito furto e às vezes assalto também. Graças a Deus nunca cometi assassinato. A primeira vez que fui preso era menor. Tinha vários crimes- tráfico de drogas, furto de carros, arrombamento de um açougue- mas só que ficava tudo arquivado, até que uns dias eles me pegaram. Com setes furtos e um assalto fui condenado e fiquei seis anos e sete meses. Saí em 2004 e foi quando resolvi mudar minha vida. Fora isso, levei várias balas perdidas. Uma na barriga que perfurou os dois pulmões e parou no pescoço, outra na cabeça e no braço.

SO - Como começou a mudança na sua vida?

Stilo - Aprendi teatro lá dentro da penitenciária. Como era dia mundial da luta contra AIDS e eu era monitor de saúde, tinha que fazer uma palestra. Aí falei com doutora: “pô queria fazer um rap da prevenção e tal”. Ela falou: “tudo bem”. Aí peguei e fiz. O rap é denominado “rap prevenção”, que tem nos meus primeiros CDs. O pessoal gostou. Fui o único detento que saiu pra gravar um CD. Fui chamado pelo ministro da Saúde para o Seminário Internacional da UNB. Vim pra Brasília e tal. Graças a Deus eles me deram um dinheiro. Nesse seminário conheci uma doutora, doutora Eliana, que me chamou pra morar com ela em Sobradinho 2.

SO - Como surgiu o primeiro projeto?

Stilo - A doutora me “mandou a idéia” que tinha um projeto para reabilitação dos presos. Como eu era reabilitado na comunidade, ela disse que eu era a pessoa certa. Fiz uma palestra em Luziânia, voltei pra casa dela e depois pra Londrina. Mas ela falou que se o projeto funcionasse, eu podia voltar. Daí ela montou o projeto Fênix, que ensina a molecada a cantar rap, hip hop. Já o “rap contra a fome” é um projeto no qual faço shows nas periferias e cobro 1 kg de alimento para entrada, depois distribuo dentro da própria comunidade.

SO - No que suas músicas são baseadas?

Stilo - São todas baseadas em fatos reais. Tudo verdade, jamais vou colocar uma coisa que não existe. Ou eu coloco o que eu passei ou o que alguém passou. Todas as minhas músicas as pessoas falam: “carai, é realidade mesmo”. A maioria é baseada na minha vida.

SO - Quais são seus futuros projetos?

Stilo - Fiz dois filmes “Bem Vigiado” , do diretor Santiago Dellape, que será mostrado no Festival de Cinema de Brasília de 2007. Outro foi “Ódio Puro Concentrado.” Fiz papel de um preso cabuloso. Ajudei o André,o diretor, em “Ódio Puro Concentrado.” Tinha coisas no filme que ele não sabia. Aí eu: “Pô André, isso aqui é mais cadeia.” Tem até uma fala minha. Numa cena com quatro homens, numa mesa jogando baralho, eu tinha que falar: “vai se fuder seu gordo.” Aí eu já coloquei na fala, na hora mesmo: “Se o mano fizer o tatu tu vai ficar entalado, seu gordo”. Mas agora eu estou escrevendo meu livro, que chama “Minha Biografia”. Ainda não terminei porque não tenho o computador e também não tenho dinheiro pra alugar um, mas vai da violência criminal à consciência cultural.

Fotos: Sabrinna Oliveira

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