
O Globo Online
CARACAS - O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, disse neste sábado, durante o Congresso de fundação do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), que o frustrado golpe de Estado que sofreu há cinco anos tinha como objetivo impedir a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, assim, enfraquecer a equerda na América Latina. Em 2002, um grupo de militares e empresários lideraram uma revolta que afastou Chávez do poder por apenas dois dias. O presidente reassumiu o cargo depois de numerosas manifestações a seu favor.
"Se nos batem, batem na Bolívia, batem até no Brasil, apesar do seu tamanho (...) O golpe de Estado contra mim tinha como objetivo afetar a candidatura do Lula, para ativar o efeito dominó contra-revolucionário na América Latina (...) mas não conseguiram", disse.
Na cerimônia que marcou a fundação do "partido da revolução", o líder venezuelano também voltou a defender a retirada das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e do Exército de Libertação Nacional (ELN) das listas de grupos terroristas. Segundo ele, o reconhecimento do status político das guerrilhas é importante para que se alcance a paz na Colômbia.
- É um passo imprescindível porque enquanto o governo da Colômbia continuar dizendo que são grupos terroristas e que devem ser exterminados, bem, que paz pode haver? - disse o governante, que obteve um grande sucesso político ao conseguir a libertação de Rojas e González pelas Farc.
As Farc, que têm cerca de 17 mil militantes, e o ELN, com 5 mil homens armados, estão nas listas de organizações terroristas feitas pelos EUA e a União Européia.
Chávez defende a necessidade de se reunir com o líder das Farc, Manuel Marulanda, para conseguir impulsionar um eventual processo de paz na Colômbia - e a libertação de um segundo grupo de reféns.
A principal guerrilha colombiana libertou, na última semana, as políticas Clara Rojas e Consuelo González, mantidas em cativeiro por 6 anos. O grupo mantém centenas de reféns em seu poder.
De olho nas eleições regionais
Em seu discurso, Chávez descartou a intenção de realizar novo referendo com o objetivo de aprovar o seu projeto de reeleição ilimitada - umas das principais propostas da reforma constitucional rejeitada no referendo em dezembro. Mas não negou os boatos recentes que poderia lançar mão de uma emenda constitucional para pôr a medida em prática.
- Eu vou embora em 2 de fevereiro de 2013. Andam falando de uma emenda constitucional (...) Não sei. Já não depende de mim. Fiz uma proposta que não foi aprovada. Eu já joguei e perdi. Não vou jogar mais esta carta.
Após sofrer sua primeira derrota eleitoral desde que foi eleito, em 1998, Chávez assegurou que dedicaria o ano de 2008 a rever e revigorar a sua "revolução socialista", substituindo seu agressivo discurso ideológico por um mais pragmático, com vistas às eleições regionais desde ano.
- Uma revolução não pode depender de um só homem, ou de uma mulher, de uma vanguarda. Deve pertencer à massa da população - disse.
Chávez "refunda" o PSUV com vistas nas eleições regionais, em que se definirá a nova estrutura política do país. Atualmente 22 dos 24 estados do país são governados por aliados do governo.
- Só faltam dez meses (de campanha). Estamos obrigados a ganhar as eleições e ganhar bem, de maneira inquestionável. Que seja uma montanha de votos - pediu Chávez a cerca de 1,7 mil delegados que participaram do evento.
Chávez pediu que seu partido se afaste do "clientelismo e populismo" e propôs a união dos partidos e movimentos sociais de esquerda do continente para defender-se de uma "agressão imperialista". Do Brasil, participam do Congresso do PSUV representantes do PT, PC do B e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).
Ao contrário do que estava previsto, a fundação do partido se limitou ao discurso do presidente. Não houve eleição dos representantes estaduais do partido, como estava previsto, e tampouco se discutiram as linhas gerais do estatuto partidário. Com o Congresso instalado, a partir de agora devem ser realizadas novas assembléias em que serão definidos temas como a ideologia e os mecanismos de seleção dos candidatos do PSUV às eleições regionais do mês de novembro.